Cartas para ele #5


Há dois meses eu não te escrevo. Há dois meses eu não escrevo nada, o que significa que eu tenho muitas coisas pra contar. O que eu fiz durante esse tempo? Bem, além do habitual trabalho, engarrafamento, estresse, poeira, saldo negativo no banco, orações para Nossa Senhora do Fim do Semestre, prisão de ventre, sonhos sem sentido, planilhas no excel e os oito cafezinhos diários eu fiz algo novo: comecei uma nova etapa na minha vida.

É isso mesmo. Uma nova etapa, uma fase novinha em folha pela frente. Frio na barriga, esperança e várias mudanças à vista. Me custou caro, é claro. Para início de conversa, segui o exemplo do poeta e paguei a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou. Em seguida, uma estafa no cartão de débito e uma viagem parcelada em 24 vezes sem juros. Não saiu barato, mas nada é barato na vida, né? A gente paga caro pelas escolhas e esse recém adquirido amadurecimento me custou um bocado. Mas definitivamente eu acho que esse é o tipo de investimento essencial.

Ah, fica tranquilo. Eu não vou surgir com o cabelo pintado de azul, os doze signos do zodíaco tatuados nas costas, com livros de astrologia debaixo do braço e um novo projeto de vida alternativa nas mãos. Eu passo por uma turbulência, mas, assim como eu, minhas turbulências sabem ser discretas e permanecem fiéis à minha essência.

Tudo muda e continua igual ao mesmo tempo. Ainda continuo refém do trabalho, do engarrafamento, da alergia à poeira, da prisão de ventre, do vício em cafeína e em paralelo um monte de coisas estão em mutação. Ninguém percebe e a cada dia que passa eu me convenço que as verdadeiras transformações acontecem bem debaixo do nosso nariz sem que a gente se dê conta.

Um belo dia você acorda e vê que se tornou um adulto, que não faz mais sentido fazer as mesmas escolhas de antes, que pizza de presunto com milho não te apetece mais, que você deixou de amar aquele seu eterno amor platônico. Comigo foi mais ao menos assim, mas tudo isso aconteceu porque eu aprendi a me perceber. Essa coisa de viver no piloto automático, sem parar pra se olhar, sem atentar para os seus desejos e para o que realmente faz sentido não faz o menor sentido, entendeu?

Chega um momento em que a gente precisa romper com esse fluxo robótico, com essa maneira louca de conduzir as coisas ou de achar que está conduzindo alguma coisa. Eu sei que é difícil pra você compreender, afinal nós estamos sempre em vibes opostas, né? Você está com pé grudado no acelerador e eu me agarrei à paz da serenidade. Não me olhe como se eu tivesse enlouquecido, pois eu nunca estive tão longe disso como agora. Eu tenho muitas coisas pra te contar, mas outra hora a gente continua, tá?

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Em vão


Olha, não me leve a mal, mas não dá mais para continuar. Adiei por muito tempo uma pergunta essencial e agora, cansada de não ter nada, me coloquei diante do meu espelho imaginário (que eu também chamo de consciência) e me fiz o questionamento inadiável: até quando esperar?

A gente nunca se prometeu nada além de uns beijos inesquecíveis e uma cumplicidade irrevogável, mas posto o término da relação, declarou-se também o meu fim. No mais cafona dos fundos de poço, eu descobri que as minhas melhores qualidades, meu sorriso de criança, minhas últimas balinhas de morango, meus mais secretos segredos, os mais profundos princípios e o meu coração foram embora contigo.

Coloquei-me a esperar o dia em que você iria sentir a minha falta, iria se cansar da vida de solteiro, ia sofrer com a abstinência do cheiro do meu cangote. Dei por certo que a solidão te encontraria um dia, logo que a outra te trocasse por outro e o inverno chegasse. Mas você não é desses que sofre de solidão, que se abala com o inverno ou que sente a minha falta.

Passaram-se muitos meses e eu fico pensando se ainda posso ser inesquecível para alguém como eu nunca fui para você, se possuo esse dom ou se esqueci de entrar na fila das “mulheres especiais” quando Deus firmou pé em ser generoso. Nada me consola, me mostra o caminha da resignação. Deixei durante todo esse tempo minha juventude trancada no armário e agora, finalmente, me pergunto se ainda vale a pena esperar que o seu amor me encontre por aí, distraída e ainda completamente apaixonada.

Não. A resposta é não e eu sempre, sempre, sempre soube disso. Não dá para esperar mais nada. O seu desinteresse deixou meu coração enferrujado, enguiçado. Parei no tempo porque sigo sendo arrastada pela rotina sem pensar em diversão, em conhecer outras pessoas, em viver de fato. Existo apenas. Estou durando, respirando e esperando um dia te ter de volta, mas a resposta é não. Esse dia não chegou, muito tempo já passou e não dá mais para esperar. Nunca nos prometemos nada e não posso mais te prometer a minha vida inteira.

 

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Espera


Aproximou-se cautelosa, a bolsa no ombro direito, a mão direita na bolsa, a esquerda no bolso. Sorriu discreta à chegada do garçom, fez o pedido, abriu a bolsa e pegou uma dessas revistas de mulherzinha. Intercalava seus olhares entre as páginas da revista e o movimento à sua volta. Minutos depois, ele lhe trouxe o café. Abriu de novo a bolsa, pegou um pacotinho de biscoitos de baixa caloria e ficou a beliscar. A julgar pelo ritmo dos olhares, goles e beliscos concluí que estava ansiosa.

Era uma ansiedade bonita, não se pode negar. Sem tirar os olhos da revista, encostava o lábio na xícara, assoprava o café de leve e bebericava. Repousava a xícara, pegava mais um biscoitinho, mastigava agitada, olhava em volta. Respirava fundo e voltava sua atenção às páginas. Esperava por alguém, decerto, e sequer percebia o meu olhar atento na mesa ao lado.

Transbordava uma beleza aflita, simples, feminina e cautelosa. Me atordoavam os cílios bonitos, o olhar de espera, o brinco de pérolas, a franja atravessando a testa, a impaciência se sacudindo no peito, como um monstro agitado no fundo do armário. Repousei meu García Márquez na mesa, enfim. Pedi uma água com gás e coloquei-me a admirá-la sem cerimônias.

É tão difícil uma garota que carregue uma poesia assim disfarçada de desespero. Porque ela estava ali a esperar não se sabe o que. E o que é a espera senão um vestígio de entrega? E quem se entrega sem que pulse em seu peito um tantinho de poesia? Ela procurava o conforto provocado pelo gosto da cafeína na boca, procurava algo que freasse seus olhos dispersos, procurava uma orientação, um abraço, alguém que lhe contasse que o mundo pode ser tão bom quanto sonhamos. Ela estava à espera.

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Pra Você Eu Digo Sim


Pra você eu digo sim
Composição: Rita Lee 

Se eu me apaixonar
Vê se não vai debochar
Da minha confusão
Uma vez me apaixonei
E não foi o que pensei
Estou só, desde então…

Se eu me entregar, total
Meu medo é
Você pensar que eu
Sou superficial

Se eu não fizer amor
Assim sem mais
Se você brigar e for
Correndo atrás de alguém
Não vou suportar a dor de ver
Que eu perdi mais uma vez meu amor

Mas se eu sentir que nós
Estamos juntos
Longe ou a sós no mundo e além
Pode crer que tudo bem
O amor só precisa de nós dois mais ninguém…

Se você quiser ser meu namoradinho
E me der o seu carinho sem ter fim
Pra você eu digo sim!

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738 dias


Abril chegou. E para contrariar a minha paz de espírito abril sempre traz a lembrança de uma paixão descabida e avassaladora. Há 738 dias tudo o que havia era eu, ele, a páscoa, umas dúzias de torpedos carinhosos e a (boa) surpresa de um primeiro beijo.  

Não sei se é o fogo de Áries me impulsionando ou se os astros gostam em tirar um sarro com a minha cara nesse mês mais do que nos outros. O fato é que no meu horóscopo sempre diz que esse é um período favorável para o surgimento de amores destrutivos, de alto teor calórico e fortes efeitos colaterais.

Para ofuscar o brilho do abril retrasado voltei a me apaixonar. Me apaixono pelo menos umas dezessete vezes por semana pelos mesmos quatro ou cinco caras e não me lembro de ter vivido toda essa intensidade nem quando tinha doze anos.

Pode parecer ridículo, eu sei. Mas pelo menos sei que não morri. Porque só tendo morrido para deixar passar aquele 1,80m de charme, virilidade e juventude sem deixar escapar um suspirozinho sequer.

Os olhos verdes do carinha da locadora, o moreno com pinta de quem sabe o que diz e o que faz e que agora substitui a velha e chata professora de Psicologia e alegra as noites de quinta-feira e o trintão com pinta de intelectual e cara de certinho, que resolveu morar no apartamento ao lado. Onde todos eles estavam se escondendo todo esse tempo?

Tá certo. Nada comparável aos batimentos descompassados, à alegria de ver o nome dele surgindo na minha caixa de entrada às duas da tarde, do beijo com gosto de Serenata de Amor ou do abraço mais reconfortante do planeta.

Me apaixono pelo menos umas dezessete vezes por semana pelos mesmos quatro ou cinco caras o que prova que a visão está ótima. Já o coração precisa de um check up, doutor. 

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Carta para ele #4


Se eu virasse a esquina e desse de cara com a sua cara acho que congelaria feito bonequinho de neve, que fica imóvel por alguns instantes e depois derrete. Sempre penso nessa possibilidade, devo admitir. Em parte porque, inevitavelmente, estou sempre em lugares em que você poderia estar e em parte porque Deus é um brincalhão e adora tirar um sarro com a nossa cara, você sabe.

Não gostaria de falar sobre o passado, nem sobre coisa nenhuma com você. Na verdade, meu cérebro não seria capaz de acionar o comando da fala, exceto por coisas do tipo “oi”, “aham”, “tá” e “tchau”, todas meio sufocadas e quase inaudíveis. Acrescente aí mãos suadas, pernas trêmulas e bochechas coradas. Nada a ver com sexo, é pânico mesmo.

Tudo o que aconteceu e toda a angústia pelo que deixou de acontecer eu tenho pra mim, no meu divã, no meu “altar particular”, na minha caixinha de lembranças, nos meus textos. E só. Fora isso nós nunca existimos, não somos assuntos na mesa de bar com as amigas, não somos fotografias em porta-retratos antigos, bilhetes, ingressos de shows ou cartões de aniversários esquecidos no fundo da gaveta.

Sobre tudo o que passou só uma coisa ficou por dizer. Bobagem minha, eu sei. Deveria ponderar que dane-se o que você pensa, mas me aflige a ideia equivocada que você possa ter a meu respeito. Então, que fique claro: eu definitivamente não sou aquilo que você viu, nunca fui e talvez nunca mais possa ser. Não me entrego, não vou pra cama no terceiro encontro, não me apaixono daquele jeito, não me disponho a mudar, a colocar aliança no dedo, casar, considerar filhos, envelhecer lado a lado e blablablá.

Amar desse jeito é algo subversivo para uma natureza como a minha. Com você eu quis tudo que nunca havia desejado. Mãos dadas na rua, dividir apartamento, sobremesa, chuveiro, edredom, sabonete… Querer um amor dessa maneira é obsceno, convenhamos.  

Tenho saudades suas, confesso sem pudor, mas não se anime e nem me leve a mal. Afinal isso é só porque ninguém apareceu ainda para limpar meu coração empoeirado e sujinho de lama. Um tombo assim é dolorido, sabe como é, né? Mas depois que nos recuperarmos, poderemos voltar a ser quem realmente somos: dois solitários.

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Altar Particular


Altar Particular
Composição: Maria Gadú

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular

Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós

Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faço melhor do que lhe parecer

Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor
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